O Desastre de Minamata



Em janeiro de 1956, quatro pacientes de Minamata, Japão, uma cidade na costa ocidental da ilha de Kyushu, foram internados no hospital.

Os médicos ficaram confusos com os sintomas que os pacientes tinham em comum: convulsões severas, surtos de psicose, perda de consciência e coma. Após, febre muito alta, todos os quatro pacientes morreram.





O desastre

Tudo começou quando, a partir da década de 1930, uma fábrica de produtos químicos – a Chisso Corporation – resolveu despejar rotineiramente seus rejeitos industriais nas águas que banhavam o município de Minamata. E o fez por duas décadas sem culpa ou pudor. Até que, em meados dos anos 1950, os habitantes daquela pequena cidade costeira do sul do Japão começaram a perceber que algo não ia bem.


A vida marinha estava contaminada. Pelos céus, aves se comportavam estranhamente; e, pelas ruas, gatos e cães nasciam com deformações bizarras. A essa altura, o mercúrio em excesso já era parte da cadeia alimentar. E estava traçado o destino de Minamata: a contaminação do ser humano seria apenas questão de tempo. Em 1956 foi registrado o primeiro caso de contaminação humana - uma criança com danos cerebrais. Muitos casos foram observados depois desta data e a moléstia ficou conhecida como Mal de Minamata.

Envenenamento por Mercúrio
Os médicos ficaram chocados pela alta mortalidade da nova doença: ela foi diagnosticada em treze outras pessoas, incluindo algumas de pequenas aldeias pesqueiras próximas de Minamata, que morreram com os mesmos sintomas, assim como animais domésticos e pássaros. Foi descoberto que o fator comum de todas as vítimas era que todas comeram grandes quantidades de peixes da Baía de Minamata. 

Pesquisadores da Universidade Kumamoto chegaram à conclusão que o mal não era uma doença, mas sim envenenamento por substâncias tóxicas. Tornou-se claro que o envenenamento estava relacionado à fábrica de acetaldeído e PVC de propriedade da Corporação Chisso, uma companhia hidroeléctrica que produzia fertilizantes químicos. O mercúrio é altamente tóxico e se acumula nos tecidos animais (peixes e moluscos). O metal pesado percorre então a cadeia alimentar, passando do organismo das presas para o dos predadores.

Falar publicamente contra a companhia era proibido já que ela era um empregador importante na cidade. Com o tempo, a equipe de pesquisa médica chegou à conclusão que as mortes foram causadas por envenenamento com mercúrio mediante consumo de peixe contaminado; o mercúrio era usado no complexo da Chisso como catalisador. 


A Síndrome de Minamata demora 20 anos para se manifestar após o início da contaminação: e este foi o período de duração do garimpo. Tem o nome de Minamata porque foi detectada pela primeira vez no Japão, numa aldeia de pescadores às margens de uma baía com esse nome, contaminada por mercúrio despejado por uma indústria no local.

Vítimas

Tomoko Uemura, de 17 anos, repousa no colo da mãe.
A divulgação mundial do trágico acidente biológico se deu a partir de 1972, quando o fotógrafo americano W. Eugene Smith fez a foto da menina Tomoko Uemura (foto ao lado). Tomoko tinha pernas e braços deformados e os sentidos comprometidos: era cega, surda e muda, e faleceu cinco anos depois da divulgação, em 1977.

No total, mais de 900 pessoas morreram com dores severas devido ao envenenamento. Em 2001, uma pesquisa indicou que cerca de dois milhões de pessoas podem ter sido afetadas por comer peixe contaminado. No mesmo período de tempo, foi reconhecido que 2.955 pessoas sofreram da doença de Minamata. Destas, 2.265 viveram na costa do mar de Yatsushiro.


Compensação
Muitas soluções foram propostas para compensarem as vítimas. A primeira onda de compensações, estabelecida em 1959, não pôde ser mantida quando novos casos da doença de Minamata começaram a aparecer. Estas vítimas e suas famílias não foram incluídas no acordo original com a Chisso e portanto, não receberam a mesma compensação que aqueles diagnosticados antes da solução original.

Assim, as famílias recém-diagnosticadas começaram a reivindicar o recebimento de compensação similar para seu caso. Um grupo decidiu processar a Chisso e portanto ir a julgamento pela sua compensação. Outro grupo buscou negociações diretas com os executivos da Chisso. Estas negociações diretas em Tóquio foram exaustivas. Depois disso, protestos e discursos pelos pacientes ocorreram fora do edifício da Chisso. A cobertura da mídia foi ampla e muitos jornalistas tomaram o lado das vítimas de Minamata. Pacientes foram mostradas em cadeiras de rodas nos protestos. Porém o impasse continuou.
Pacientes e simpatizantes marcharam até os escritórios da Chisso e tentam alcançar o escritório do presidente. Eles foram encontraram barras de aço bloqueando a porta da Chisso no Edifíco Tóquio. Os pacientes usaram as barras a seu favor construindo memoriais para os que morreram da doença de Minamata.

Devido à grande cobertura da mídia, o Partido Comunista e o Partido Socialista do Japão começaram a apoiar mais abertamente os portadores da doença de Minamata junto com a Federação Trabalhista Sohoyo.

A atenção da mídia e de autoridades dos partidos políticos permitiram que a doença de Minamata se tornasse um dilema amplamente conhecido no Japão, dando uma voz à minoria portadora da doença de Minamata, e permitindo democracia japonesa atingir um novo nível. Também, devido ao suporto ostensivo dos partidos políticos, e a chamada do sindicado à Chisso para negociar, o governo japonês entrou em ação com o Diretor Geral da Agência do Meio Ambiente (Oishi Buichi) pedindo para mediar as negociações. Também nesta época, o governador Sawada Issei veio a Tóquio para ajudar a romper o impasse nas negociações. Ambos, Sawada e Oishi reuniram-se com os pacientes, Kawamoto e Sato, e também com Shimada, executivo da Chisso, que tinha retornado do hospital. Os dois lados concordaram com a mediação de Sawada e Oishi.


Assim que as negociações começaram, os pacientes se opuseram a um acordo espelhando a primeira solução. Eles não apenas queriam compensação igual e suficiente, mas também que a Chisso assumisse publicamente a responsabilidade pela doença de Minamata.

Durante estas negociações e também conversas por vantagens compensatórias, 29 outros pacientes foram diagnosticados coma doença de Minamata. Estes novos pacientes foram mais cooperativos com a Chisso e concordaram em aceitar uma baixa compensação de $570 cada. Isto causou uma cisão entre as famílias recém-diagnosticadas. Isso tirou muito da vantagem do grupo de negociação direta e deu vantagem à Chisso.

A divisão entre o grupo de Tóquio e o grupo de Minamata gerou ressentimentos. Os de Minamata continuaram a trabalhar, enquanto os que protestavam em Tóquio recebiam suporte financeiro de simpatizantes em Tóquio. Muitos daqueles em Minamata enfrentavam contínua discriminação, mas também eram ameaçados de perder seus empregos se continuassem com as negociações. Somente quatro pessoas decidiram deixar as negociações. Os pacientes reduzem suas demandas para aproximar-se do primeiro acordo entre a Chisso e as primeiras vítimas. Porém a Chisso recusou devido à ausência de um sistema de classificação da gravidade da doença. Então as negociações foram suspensas.

Finalmente, o veredito do julgamento foi dado em favor dos pacientes. A corte distrital julgou a Chisso culpada de negligência corporativa e ordenou o pagamento de $66.000 para cada paciente que já tinha morrido, entre $59.000 e $66.000 para pacientes sobreviventes, atingindo um total de $3.44 milhões. Isto deu ao grupo de negociação direta pontos para alcançar um acordo.

Depois de dias de negociações, a Chisso concordou em pagar $66.000 para pacientes falecidos que foram incluídos no grupo dos recém-diagnosticados. Isto abriu as portas para os demais recém-diagnosticados pacientes ser incluídos na decisão do julgamento.

Finalmente, em 9 de julho de 1973, mediante o trabalho do novo diretor da Agência Ambiental Miki, um acordo foi alcançado. Esta proposta incluía a compensação baseada na classificação da gravidade dos sintomas, mas também pagamentos aos pacientes por ano para cobrir despesas de vida, e pagamento para despesas médicas. O governo também proveria exames médicos para as pessoas vivendo na área afetada. Estas compensações e ações foram consideradas inadequadas por muitos. 




Efeitos democratizantes
De acordo com Timothy S. George, os protestos ambientalistas que cercaram a doença aparentemente ajudaram a democratização do Japão. Quando os primeiros casos foram reportados (ou mais exatamente suprimidos) as vítimas não tinham direitos e não recebiam compensações. Em vez disso, os afetados eram excluídos de sua comunidade devido à ignorância sobre a doença e as pessoas temiam que fosse contagiosa.

Embora alguns médicos e autoridades governamentais viessem a descobrir que o envenenamento por mercúrio estava causando a doença e fossem capazes de rastrear a doença até o consumo de peixe próximo à fábrica de Nitchitsu que despejou o mercúrio, nenhuma ação foi tomada para solucionar o problema, uma vez que as os pescadores e vítimas representavam uma pobre minoria sem voz influente.

As pessoas diretamente afetadas pela poluição da Baía de Minamata não participaram inicialmente das ações que iriam afetar seu futuro. Vítimas da doença, famílias de pescadores, e empregados da companhia foram excluídos do debate. Os progressos ocorreram quando as vítimas de Minamata foram finalmente permitidos a reunir-se para discutir o assunto. Como resultado, o Japão do pós-guerra deu alguns passos em relação à democracia. Uma razão pode ser porque depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, a fábrica era parte do novo zaibatsu que era determinado a ser mais importante que a vida de seus mais pobres cidadãos.

Através da evolução dos sentimentos públicos, as vítimas e ambientalistas foram capazes de proceder mais eficientemente em sua causa. O envolvimento da imprensa também ajudou o processo de democratização porque fez com que mais pessoas tomassem conhecimento dos fatos da doença de Minamata e da poluição que a causou.

Somente em 1997 os últimos prejudicados pela tragédia de Minamata foram habilitados a receber indenizações.


Fontes:
http://pt.wikipedia.org
http://cienciahoje.uol.com.br/especiais/rastros-do-mercurio/passado-e-tragedia
http://www.brasilescola.com