A tragédia de Bhopal



A tragédia de Bhopal foi um desastre industrial que ocorreu na madrugada de 3 de dezembro de 1984, quando 40 toneladas de gases tóxicos vazaram na fábrica de pesticidas da empresa norte-americana Union Carbide. 

É considerado o pior desastre industrial ocorrido até hoje, quando mais de 500 mil pessoas, a sua maioria trabalhadores, foram expostas aos gases. O número total de mortes é controverso: houve num primeiro momento cerca de 3.000 mortes diretas, mas estima-se que outras 10 mil ocorreram devido a doenças relacionadas à inalação do gás.


A Tragédia


Tudo começou em 3 de dezembro de 1984, na fábrica da Union Carbide, empresa de pesticidas de origem americana,. A fábrica usava grande quantidade da substância tóxica Isocianato de metila  e por isso mantinha cheio o estoque nos tanques. Os sistemas de segurança da fábrica eram insuficientes, devido ao corte de despesas com segurança imposto pela matriz da empresa, nos EUA, que por sua vez aconteceu por conta do baixo retorno financeiro que a indústria vinha mantendo.

Passavam alguns minutos da 1 hora da madrugada de segunda-feira quando dois funcionários da  indústria química instalada em Bhopal, na paupérrima região central da índia, puseram-se a trabalhar. Como faziam regularmente a cada seis meses, eles iniciaram a limpeza externa dos três tanques de aço inoxidável onde a empresa estocava sua produção diária de isocianato de metila - composto altamente tóxico utilizado como matéria-prima na fabricação de defensivos agrícolas e capaz de, na quantidade estocada na usina, matar tudo o que estivesse vivo em Bhopal.

Nesse instante um alarme soou, dando sinal de que a válvula de segurança de um dos tanques rompera-se. A pressão estava aumentando no tanque - e o isocianato de metila, ali mantido em forma líquida, ameaçava escapar se o tanque explodisse. Imediatamente um dispositivo automático disparou o antídoto previsto para tais casos: um sistema de aspiração que deveria transferir a substância letal para um depósito de 15 metros de altura onde uma solução neutralizaria seus efeitos danosos para a saúde, antes de liberá-la na forma de gás para a atmosfera. Mas algo de errado se passou. Os funcionários logo perceberam que a substância estava saindo depressa demais e que, apesar da transferência para o depósito neutralizador, a pressão no tanque continuava a aumentar vertiginosamente. A operação de transferência falhara.

Em segundos outro alarme ecoou e os funcionários, ao contrário do que estavam acostumados a fazer nos exercícios de prevenção, não ligaram as mangueiras destinadas a esfriar o tanque. Em vez disso, fugiram. Eles sabiam que tinha acabado de se concretizar o que pode acontecer de pior com o isocianato de metila: passar do estado liquido para o estado gasoso, transformando-se num assassino silencioso e devastador.

Rapidamente, uma nuvem de gás venenoso surgiu da válvula defeituosa e começou a encobrir a usina. Levada pelas brisas noturnas, em poucos minutos a massa gasosa pairava sobre o território vizinho da fábrica, ocupado pelo bairro Jayaprakash Nagar, um amontoado de quase 2.000 barracos. No mesmo instante, milhares de pessoas saíram às ruas sentindo os seguintes sintomas: dificuldade para respirar, olhos queimando, tonturas, entre outros. Quando o sol apareceu na segunda-feira, uma área de 40 quilômetros em torno da Union Carbide transformara-se numa letal câmara de gás.



Mais de 25.000 toneladas de isocianato de metila haviam escapado para a atmosfera - e Bhopal, uma cidade histórica construída no século XI, inscrevera-se como palco da mais devastadora catástrofe já desencadeada por uma substância química em tempos de paz.

O gás venenoso era mais pesado que o ar, por isso, quando vazou, estabeleceu-se em uma nuvem densa que moveu-se silenciosamente pelos bairros pobres ao redor da fábrica", disse Swaraj Puri, chefe da polícia de Bhopal na época, em entrevista à BBC em 2009, recordando a noite fatídica.

Às 2h30min, a sirene da usina soou. "Gás está vazando da usina", gritavam pessoas nas ruas de Bophal.

"Nós estávamos tendo asfixia e os nossos olhos queimavam, mal podíamos ver a estrada em meio à neblina, as sirenes eram estridentes, não se sabia qual o caminho a ser seguido. Todo mundo estava muito confuso", disse à BBC Ahmed Khan, morador de Bhopal, pouco após o desastre em 1984. "As mães não sabiam que filhos tinham morrido, crianças não sabiam que mães tinham morrido e homens não sabiam que tinham perdido suas famílias."

O correspondente da BBC Mark Tulley relata que o "hospital principal da cidade estava irremediavelmente superlotado, com pacientes que não paravam de chegar". Haviam milhares de gatos mortos, os cães, as vacas e as aves - todos mortos - espalhavam-se pelas ruas e os necrotérios da cidade superlotaram-se rapidamente.

Swaraj Puri, ex-chefe de polícia de Bhopal, disse em entrevista à BBC que, ao amanhecer, "coube a mim e aos meus homens começar a recolher os corpos. Havia mortos em quase todos os lugares. Minha reação foi 'Oh meu Deus! O que é isso? O que aconteceu?' Nós ficamos chocados, não sabíamos como reagir."

Em menos de 48 horas, mais de 2.000 pessoas foram mortas por asfixia, a maioria enquanto dormia. Dos 50.000 feridos, quase a metade ficaram cegos, com as córneas ulceradas pelo gás, e vagavam pelas ruas da cidade à procura de socorro. O número de mortos continuou subindo rápido. Em 72 horas, mais de 8.000 pessoas tinham morrido. Outros milhares morreram nos meses seguintes.

A perda da visão foi uma das sequelas dos acidentados, e o pior, várias pessoas (dentre elas crianças) chegaram a óbito no mesmo dia e nos dias seguintes. Muitas mulheres grávidas que habitavam a cidade de Bhopal sofreram abortos instantâneos e houve morte de grande parte dos bebês que nasceram naqueles dias.

Ao aspirarem o isocianato de metila em forma de gás, os habitantes de Bhopal foram submetidos a uma morte lenta e aterrorizante. Como o veneno reage ao entrar em contato com a água, o ataque quámico toma-se mais duro na exata medida em que o organismo secreta láquidos para se proteger da agressão. Nos olhos, por exemplo, assim que o lacrimejar fica mais intenso a cárnea á atacada com tamanha ferocidade que chega a perder a transparêrncia, tomando-se opaca e ocasionando a cegueira, só reversível mediante transplantes. O mesmo efeito pode ser sentido na boca, no nariz e nos pulmões. A sensação era semelhante a uma queimadura com fogo.

Dentro do corpo, o isocianato de metila segue seu curso de destruição. Ao penetrar nos pulmões faz entupir os alvéolos, impedindo a passagem do oxigênio para a corrente sanguínea. As vítimas de Bhopal, assim, morreram com a sensação de que estavam se afogando. O pior é que de nada adiantava dar oxigênio extra às vítimas, pois os alvéolos mantinham-se bloqueados.




A Union Carbide negou-se a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes e, como conseqüência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente os indivíduos expostos. Cerca de 150 mil pessoas ainda sofrem com os efeitos do acidente e aproximadamente 50 mil pessoas estão incapacitadas para o trabalho, devido a problemas de saúde. 

As crianças que nascem na região filhas de pessoas afetadas pelos gases também apresentam problemas de saúde. Mesmo hoje os sobreviventes do desastre e as agências de saúde da Índia ainda não conseguiram obter da Union Carbide e de seu novo dono, a Dow Química(Dow Chemicals), informações sobre a composição dos gases que vazaram e seus efeitos na saúde. Apesar deste quadro absurdo, a fábrica da Union Carbide em Bhopal permanece abandonada desde a explosão tóxica enquanto que resíduos perigosos e materiais contaminados ainda estão espalhados pela área, contaminando solo e águas subterrâneas, dentro e no entorno da antiga fábrica.



Até os dias de hoje não se sabe quem seria realmente o responsável pelo incidente e a empresa responsável pela Union Carbide, a Dow Chemical Company, passou a acusar um suposto movimento terrorista indiano. Mais tarde, quando a história se tornou insustentável, acusou um empregado de sabotagem. 

O processo arrastou-se por longos anos até que um tribunal dos EUA decretasse que a sabotagem tinha sido o fator que levou ao desastre. Dow Chemicals nunca aceitou que o julgamento fosse feito no local onde efetivamente deveria ter sido realizado, na Índia. O responsável pela fábrica continua fugido nos EUA e os pedidos de extradição para a Índia foram sistematicamente recusados. O governo declarou que 5.295 morreram no desastre, mas ativistas falam em mais de 20 mil vítimas fatais.

Ambientalistas dizem que a toxina vazada ainda contamina o solo e as águas subterrâneas. Mas o governo do Estado nega, insistindo que o abastecimento de água ao redor da planta é seguro.


Culpa e compensações


Em 2001, a Dow Química comprou a Union Carbide. Por esta aquisição, a Dow passou a ser responsável não apenas pelos ativos da empresa, como também por seus passivos ambientais e pelos crimes cometidos em Bhopal. No entanto, a Dow continua negando sua responsabilidade pelo crime cometido.

A empresa tentou se livrar da responsabilidade pelas mortes provocadas pelo desastre, pagando ao governo da Índia uma indenização irrisória em face a gravidade da contaminação. A Union foi intimada a compensar aqueles que, com o desastre, perderam sua capacidade de trabalhar. A companhia se recusou a pagar US$ 220 milhões exigidos pelas organizações de sobreviventes. Em fevereiro de 1989, depois de cinco anos de disputa legal, o Governo Indiano e a empresa chegaram a um acordo de US$ 470 milhões. Supostamente, esta quantia deveria pôr fim a toda responsabilidade da indústria perante à sociedade.

A indenização médica, de US$ 370 a US$ 533 por pessoa, seria suficiente apenas para cobrir despesas médicas por cinco anos. Muitas das vítimas, incluindo-se crianças sofrerão os efeitos pelo resto da vida. A indenização acordada não cobriu despesa médicas ou prejuízos relacionados à exposição contínua à área contaminada. O maior acidente industrial do mundo custou à Union Carbide apenas US$ 0,48 por ação.



Memorial às vitimas de Bhopal.
Os moradores encontram-se revoltados e indignados com a situação em que vivem. Boatos dizem que as vítimas não receberam todo o dinheiro da compensação paga pela Union Carbide ao governo. quase 30 anos depois as ações tomadas foram apenas retóricas ou cosméticas. 

As pessoas continuam, na prática, sem qualquer tipo de compensação ou apoio que lhes permitam, por exemplo, cuidados médicos relativos com a sua situação de saúde e a Dow continua a afirmar que essas compensações nunca terão lugar.

Em 7 de Junho de 2010, em um tribunal indiano, a empresa química norte-americana Union Carbide e sete dos seus funcionários, de nacionalidade indiana, chegaram a ser indiciados por negligência agravada.

A empresa alega hoje em dia em seu site que o vazamento de gás da fábrica em Bhopal, na Índia, foi causada por um ato de sabotagem, que resultou em uma trágica perda de vidas.









Fontes:

http://www.mundoeducacao.com/quimica/tragedia-bhopal.htm
http://veja.abril.com.br/arquivo_veja/capa_12121984.shtml