VOO 401 DA EASTERN A QUEDA NO PÂNTANO


O L-1011. Foto: Site Eastern 401 

Numa noite fria de inverno, 29 de dezembro de 1972, um avião da Eastern Airlines, prefixo N310EA, descansava silenciosamente na área de estacionamento do terminal do Aeroporto Internacional John F. Kennedy em Nova York, nos Estados Unidos. Aquela aeronave era tida como orgulho da Eastern: se tratava de um novo Lockheed L-1011-385-1 TriStar 1, de três motores e do tipo widebody (avião a jato de fuselagem larga que era a sensação do início dos anos 70) e que fora comprado recentemente pela empresa. Ele faria o voo 401 rumo a Miami naquela escura e fatídica noite. Era a última vez que o Tristar cruzaria os céus dos Estados Unidos.

Os 163 passageiros à bordo voariam no que havia de mais moderno e confortável. A maior parte deles estavam indo para o sul a fim de comemorar o ano novo.

Na cabine de comando estavam três profissionais experientes. O comandante Robert Loft tinha mais de 30.000 horas de vôo em seus 55 anos de vida, mas apenas 300 delas no comando do Tristar. O primeiro-oficial Bert Stockstill, com 42 anos e o engenheiro de vôo Don Repo, com 51, completavam a tripulação técnica. Na cabine, cuidavam dos passageiros 10 comissários e comissárias que deveriam voar numa outra rota mais cedo,a do voo 477 com destino a Fort Lauderdale. Como o voo que os traziam acabou atrasando, a Eastern permutou a tripulação do voo 401 com a do 477. Eles embarcaram então no voo que se acidentaria mais tarde.

Finalmente, com a tripulação do voo 477 transferida, o Eastern 401 pode partir. As 21h20, o L-1011 decolou do Aeroporto JFK em New York, 1.755 quilômetros ao norte de Miami. Ajudado por um vento de cauda, o Tristar tirou parte do pequeno atraso na partida. Era fase de lua nova e não era possível distinguir céu e terra, pântano e firmamento. A escuridão embaralhava a visão, afetava o julgamento de espaço e distância. 

O vôo transcorreu normalmente e as 23:29 o Tristar manobrava sobre a escuridão do pântano, em aproximação para a pista 09L. Na reta final, ao passar pela marca de 3.000 pés, Stockstill percebeu que a luz de indicação de travamento do trem de pouso dianteiro não estava acesa. A apenas 1.500 pés de altura e a segundos do pouso, o cauteloso Loft comandou uma arremetida. O Tristar ganhou altura e solicitou à torre instruções, recebendo como resposta: 


Torre: "Eastern 401, suba e mantenha 2.000 pés, contate o controle de saída na freqüência 128.6." 

O Tristar executou uma curva para a proa 360 e depois tomou o rumo 270, sobrevoando os Everglades. A tripulação solicitou e obteve autorização para descrever uma série de órbitas, enquanto tentava descobrir o problema. Angelo Donadeo era engenheiro na Eastern, responsável pelos Tristar na frota e fã do moderno jato da Lockheed, o qual conhecia como poucos. Voava naquela noite como observador na cabine, ocupando o assento extra conhecido como jump-seat. Quando surgiu o problema, Donadeo prontificou-se a ajudar a tripulação. O comandante Loft acreditava tratar-se apenas de uma lâmpada queimada, ao invés de um real problema no mecanismo do trem de pouso. 

Para verificar se o trem estava baixado e travado na posição segura, era preciso descer na baía de eletrônicos, situada numa caverna sob o piso da cabine de comando e de lá observar (através de um periscópio especialmente desenhado para esta função) se o trem de pouso dianteiro estaria travado. 


O acesso à baía era feito por uma escotilha no chão da cabine de comando. Donadeo e Repo desceram, encontrando dificuldade em enxergar claramente na apertada e escura baía. O Tristar voava no piloto automático, cumprindo sua órbita a 2.000 pés, enquanto a tripulação tentava resolver o problema. Impaciente, Loft ergueu-se de seu assento. Ao fazê-lo, sem perceber empurrou a coluna de comando e desligou o piloto automático, uma configuração de sistema onde bastava um pressão de 15 a 20 libras sobre a coluna de comando para desligar o auto-pilot. Loft e sua tripulação não perceberam que o Tristar iniciara por contra própria uma suave descida, abandonando a altitude de 2000 pés. 

Prosseguindo na tentativa de resolver o problema, minutos após, Repo e Donadeo confirmaram: o trem estava baixado e travado; o L-1011 poderia pousar com segurança. Loft e Stockstill voltaram às suas posições. Loft chamou a torre Miami e informou que estava pronto para reiniciar sua aproximação. Já em seu assento, Stockstill examinou o painel à sua frente. Espantado, descobriu que o L-1011 voava mais rápido que o previsto, 190 nós. Olhou para o altímetro, este marcava menos de 100 pés de altitude. Sua voz saiu num tom elevado, denunciando sua surpresa:

Ficheiro:Ea401.png

Co-piloto: "Nós fizemos alguma coisa com a altitude!"
Comandante: "O quê? Perguntou surpreso o comandante Loft."
Co-piloto: "Ainda estamos a 2.000 pés, certo?"

Loft olhou para seu altímetro. Olhou também para fora e notou um estranho brilho nos visores frontais: as luzes de aproximação do Tristar começavam a ser refletidas nas águas escuras dos Everglades. Eram 23h42:05. A voz tensa de Bob Loft ficou registrada no gravador de cabine:

Comandante: "Ei, o quê está acontecendo aqui?"


Às 23h42:09 da noite de 29 de dezembro de 1972, o Tristar matriculado N310EA entrou voando a 400 km/h no pântano. A desintegração foi imediata. A fuselagem partiu-se em três grandes partes, separando-se das asas, motores e da cauda. Muitas partes afundaram e desapareceram de vista. Outras,  permaneceram sobre as águas a marcar o local onde 99 pessoas perderam a vida estupidamente.



Horas depois, equipes de resgate chegaram ao que restou da cabine de comando em busca dos tripulantes. Stockstill morrera no impacto inicial. Bob Loft, com graves ferimentos na cabeça, várias costelas e coluna fraturadas, fitou os membros da equipe de resgate que tentavam consolá-lo e disse simplesmente: "vou morrer". Ele morreria logo em seguida. 

O resgate agora concentrava-se em Repo e Donadeo, que ainda estavam dentro da baía na hora do impacto. Finalmente libertados dos destroços pelos paramédicos, foram levados ao hospital. O engenheiro Don Repo resistiu por apenas mais algumas horas. Donadeo sobreviveu, apesar de seus ferimentos graves.



As Causas dos Acidente

Os investigadores acreditam que o piloto automático desligou-se após o capitão acidentalmente esbarrar na coluna de direção enquanto ele se virava para falar com o engenheiro de vôo, que estava sentado atrás dele e à sua direita, o que fez o avião entrar numa vigorosa descida. Depois de um pequeno espaço de tempo voando a "baixa altitude", o alarme soou a partir da retaguarda, mas nunca foi ouvido pelos membros da tripulação, que estavam ocupados cuidando da lâmpada queimada. No momento do alarme, apenas três membros estavam na cabine do piloto. O engenheiro estava no andar inferior inspecionando o trem de pouso.

O relatório final da NTSB (National Transportation Safety Board) cita a causa do acidente como erro do piloto e relata: "o fracasso da tripulação em controlar o vôo por instrumentos durante os últimos quatro minutos de vôo e em detectar rapidamente uma inesperada descida, com o tempo suficiente para evitar o impacto com o solo. A preocupação com o mau funcionamento do indicador de falha no trem de pouso tirou a atenção da tripulação dos instrumentos e permitiu a descida que passou despercebida."

 No painel do avião, os controles do
piloto automático e de altitude
O trem de pouso foi encontrado após a o acidente abaixado e na posição travada, o que seria o correto. Noventa e quatro passageiros e cinco membros da tripulação morreram no acidente e outros dois morreram de ferimentos durante os dias seguintes. A série de acontecimentos que conduziram à queda do vôo 401 foi iniciada por duas lâmpadas queimadas indicando para a tripulação que o trem de pouso estava, supostamente, avariado.

VÍDEO DA RECONSTITUÇÃO E ANÁLISE DO ACIDENTE: