VOO RG 820 DA VARIG - INCÊNDIO NA AERONAVE



Foto: Jetsite 

No dia 11 de julho de 1973, o Boeing 707 prefixo PP-VJZ da Varig decolou do Aeroporto  Internacional de Galeão   no Rio de Janeiro, Brasil com destino a Londres, Inglaterra e uma escala no Aeroporto de Orly, em Paris, França. A aeronave faria o voo RG -820 que levava 117 passageiros e 17 tripulantes. Aquele avião levava algumas personalidades do país: o cantor Agostinho dos Santos, a atriz e socialite Regina Lecléry, o iatista Jörg Bruder, o senador Filinto Müller, então presidente do Senado Federal, e os jornalistas Júlio Delamare e Antônio Carlos Scavone. No comando do jato estava o comandante Gilberto Araújo da Silva, mais de 20 mil horas de voo e um dos melhores pilotos da Varig com o título de Comandante Master (posto máximo na carreira de piloto). Ele era auxiliado pelo 1º oficial, Antônio Fuzimoto.

A manhã estava tranquila quando o avião levantou vôo do aeroporto do Rio de Janeiro. A travessia sobre o Oceano Atlântico ocorreu sem problemas e logo estavam sobrevoando a bela cidade de Paris, onde o avião faria uma escala. A comissária de bordo pediu para que todos sentassem em suas poltronas e afivelassem o cinto de segurança. O comandante Gilberto com uma voz calma descreve os pontos turísticos de Paris. O avião já estava em procedimento de pouso, a quase quatro quilômetros e apenas a 1 minuto da pista do Aeroporto de Orly,  quando a torre de controle recebe uma mensagem:

Comandante Gilberto: “Eu tenho um problema mecânico com meus motores … Eu não preciso disso … Eu vou morrer!” Um  incêndio em um dos banheiros da aeronave, provocou uma grande fumaça, que logo tomou conta de toda a aeronave. Membros da tripulação tentaram conter o incêndio no fundo do avião, mas não conseguiram encontrar uma maneira de apagá-lo. Os pilotos perderam contato com a torre de comando e, em condições desumanas, sem conseguir respirar e enxergar, tiveram que realizar um pouso de emergência sobre uma plantação de cebolas da vila de Saulx-les-Chartreux, ao sul de Paris.

AFP
Foto: revista Época
Em uma manobra de muita habilidade, os comandantes Gilberto Araújo da Silva e Antônio Fuzimoto desviaram das milhares de casas da capital francesa.

A aterrissagem de emergência foi feita a pouco mais de um quilômetro da pista de Orly. Quando a aeronave realizou o pouso de emergência, a maioria das pessoas a bordo já haviam morrido, intoxicada pela fumaça.

Apenas um passageiro sobreviveu (Ricardo Trajano, de 19 anos, que se recusou a atender a ordem dos comissários de ficar sentado preso pelo cinto. Ele se levantou e fez o pouso sentado no chão e agarrado na porta da cabine), enquanto a maior parte da tripulação deixou o avião pela saída de emergência da cabine do piloto.  O incêndio, a fumaça e a aterrissagem forçada resultaram em 123 mortes, com apenas onze sobreviventes (dez tripulantes e um passageiro).


Todos os sobreviventes escaparam com ferimentos, queimaduras e fraturas pelo corpo, provocadas pelo pouso forçado no terreno irregular, incluindo o 1º oficial Antônio Fuzimoto, que foi o responsável pelo comando da aeronave nos momentos finais e pelo pouso no campo, uma vez que o comandante estava sem conseguir enxergar nada e machucado com uma fratura exposta no braço.

O comandante do voo, Gilberto Araújo da Silva, que sobreviveu à tragédia, recebeu condecorações dos governos do Brasil e da França, por impedir que o avião caísse sobre residências, evitando uma tragédia ainda maior. Gilberto desapareceria seis anos depois, em 1979, enquanto comandava outro voo, de carga, sobre o Oceano Pacífico, na rota Tóquio–Los Angeles–Rio de Janeiro.

O sobrevivente

O jovem Ricardo Trajano, de 1,90 metro de altura, que viajou sozinho na fila 27 do avião, espalhado nas três cadeiras da penúltima fileira da classe turística, foi o único sobrevivente da tragédia entre os passageiros (dos dezessete tripulantes, sete morreram). Salvou-se por desobedecer as instruções da tripulação, sair do seu lugar, e ficar sentado perto da cabine de comando, respirando menos fumaça na área próxima do tapete do corredor. Ele conseguiu chegar ao pouso respirando gases tóxicos desmaiado e inconsciente, mas vivo, enquanto as pessoas morriam a sua volta, paralisadas em sua poltronas pelo gás carbônico da fumaça negra que envolveu todo o interior da aeronave em minutos.

Ricardo foi retirado desmaiado e agonizando do avião, pelo bombeiro francês Jean-Marc Veron, oito minutos após o pouso forçado. Quando conseguiu abrir a porta principal do avião, o bombeiro encontrou um corpo encostado caído nela, queimado porque após o pouso, o teto do avião desabou em chamas sobre o interior da aeronave. Ele foi transladado de maca de Paris num voo especial da Varig, e ficou dois meses internado no Hospital da Beneficência Portuguesa, no Rio.

Um ano após a tragédia do voo RG-820, já recuperado, Ricardo Trajano entrou numa loja da Varig num hotel do Rio de Janeiro, dirigiu-se à surpresa atendente do balcão de passagens dizendo: "No ano passado comprei uma passagem para Londres, mas o avião caiu e eu não cheguei lá. Acho que tenho direito a outra." Levou a passagem na hora.

A causa mais provável do incêndio foi uma ponta de cigarro acesa, que teria sido jogada na lixeira do toalete da aeronave no orifício coletor de papéis. Após o desastre, a Federal Aviation Administration exigiu medidas de segurança em todos os aviões, como a colocação de avisos proibindo o fumo nos toaletes e a colocação de cigarros nos cestos de lixo, o anúncio aos ocupantes de que é proibido fumar naquele local, instalação de cinzeiros em determinados pontos da cabine e a realização de inspeções periódicas nos toaletes. Posteriormente o fumo seria banido dos aviões.

Assista a reportagem da ocasião acidente 



Nova Vida

Após o acidente ocorrido na França, o comandante Gilberto ficou conhecido no mundo todo. Foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico, no grau de Cavaleiro, pelo governo francês e em 1975 ganhou o “Brevet de Ouro”, dado pela Varig, em reconhecimento aos seus 25 anos de comando na aviação comercial. O comandante foi afastado dos vôos comerciais devido ao acontecido fazendo apenas vôos regionais. Alguns anos após o acidente, Gilberto recebeu a notícia de que voltaria a pilotar um Boeing 707. Ele mais uma vez seria protagonista de outro episódio histórico na aviação mundial, naquele que ficou conhecido como o maior mistério da era dos aviões a jato.