VÔO 168 DA VASP - APROXIMAÇÃO CATASTRÓFICA



Clique aqui para a foto em tamanho grande!Na madrugada de 08 de junho de 1982, às 02h45, um dos Boeing 727-212A também conhecido como "Super 200" com as cores da empresa paulista Vasp e ostentando o prefixo PP-SRK, aproximava-se para efetuar seu pouso sob uma fina chuva na cidade de Fortaleza, Ceará, após cumprir mais um vôo na extensa malha de rotas da companhia.

O avião, que havia decolado do aeroporto de Congonhas em São Paulo e feito escala no Rio de Janeiro, realizava o vôo 168 sem maiores problemas até bater e explodir em uma serra durante sua aproximação do Aeroporto Pinto Martins em Fortaleza, causando a morte imediata das 137 pessoas que levava. A aeronave do até então maior acidente da aviação brasileira não era de propriedade da Vasp. A empresa paulista, que encomendou seu primeiro 727 em 1977, foi a única empresa brasileira a operar o modelo 200 no país nos anos 80, chegando a ter um total de 12 unidades de 727 com as suas cores e havia arrendado a aeronave da International Lease Finance Corporation (ILFC) em 1980. Ironicamente, o PP-SRK estava prestes a ser devolvido, pois no mês de outubro voltaria para a ILFC.


Observação: O mapa publicado originalmente pela revista Veja, mostra a rota do PP-SRK desde o momento em que este decolou de São Paulo com destino ao Rio de Janeiro e, depois, desta cidade para Fortaleza. O avião passou por Minas Gerais, Bahia e Pernnambuco, onde nota-se a curva na região de Petrolina para a última etapa, o Ceará. Era um vôo longo, cruzando quase todo o Brasil.
O vôo 168 da Vasp naquela madrugada não era um vôo comum, pois levava um grupo de passageiros em festa: o Boeing da Vasp levava um grupo de quinze empresários do setor têxtil do Ceará que haviam acabado de participar da 27ª Fenit em São Paulo com muito sucesso e ainda comemorava este fato. Viajavam também no PP-SRK o poderoso empresário Edson Queiroz, dono de um império de empresas de comunicação (que incluía a TV Verdes Mares de Fortaleza), uma universidade e era um dos maiores distribuidores de gás liquefeito de petróleo (gás butano) do Brasil na época, que entrou no Vôo 168 na última hora, trocando uma passagem da Varig na manhã seguinte pelo noturno da Vasp em razão de um compromisso em Fortaleza logo cedo. No avião também estava um dos donos das Casas Pernambucanas, Ernesto Lundgreen e José Carlos Bezerra Mattos, presidente da Confederação Nacional do Teatro Amador.

Ao deixar o solo na capital paulista o avião levava 54 passageiros e 9 tripulantes, segundo dados oficiais da empresa. No comando estava Fernando Antônio Vieira de Paiva, um dos mais antigos pilotos da Vasp na época, com 21 anos de serviço, conhecido como "Comandante Vieira" e que estava no cockpit do 727 acompanhado de outros dois experientes membros técnicos atuando como primeiro-oficial e engenheiro de bordo. Segundo o relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) do Ministério da Aeronáutica, a decolagem em São Paulo ocorreu as 22h53 horas do dia 7 de junho de 1982, uma noite clara de segunda-feira na capital paulista.

Cerca de quarenta minutos depois de decolar do Aeroporto de Congonhas, o PP-SRK pousou no Aeroporto Galeão, na cidade do Rio de Janeiro, cumprindo a única escala do vôo com destino a Fortaleza. Ali outros 67 passageiros embarcaram na aeronave, orientados pelo chefe de cabine Humberto Pestana que comandava mais cinco comissários. A decolagem do Rio de Janeiro foi efetuada as 00h12 minutos e o vôo prosseguiu, com lotação quase completa, para seu destino final.

Pouco depois da decolagem, já em altitude de cruzeiro, iniciou-se o serviço de bordo servido de duas galleys diferentes e os passageiros, confortáveis na cabine pressurizada com temperatura de 22 graus, puderam se distrair com os sete canais de áudio que a Vasp chamava de "Música no Ar", na época uma das atrações da empresa para seus "VEN" (sigla para "Vôo Econômico Noturno").

O comandante pediu para deixar o nível de cruzeiro a aproximadamente 253 km de Fortaleza, quando pelas cartas de navegação utilizadas para a aproximação ao Aeroporto Pinto Martins deveria fazê-lo a 159 Km. Tanto o controle de tráfego quanto o seu auxiliar não questionaram o motivo de descer tão longe. A antecipação da descida levou a aeronave a atingir 3000 pés bem antes da linha vertical do Aeroporto Pinto Martins e que era a altitude mínima para o bloqueio. O alarme de altitude ("altitude alert") existente na cabine da aeronave é acionado durante duas vezes nessa passagem de altitude. O primeiro sinal de alerta é dado quando a aeronave atinge a altura de 5.800 pés (cerca de 1.933 metros). O segundo, quando ela atinge 2.300 pés (cerca de 767 metros). Ao estabilizar na altitude autorizada pelo tráfego, já dava pra ver as luzes da capital cearense. Foi quando o co-piloto disse: "Não tem uns morrotes aí na frente?" (dados do CVR). Nesse momento, o Boeing da Vasp sobrevoava a região de Pacatuba. Seis alarmes soaram na cabine, mas o piloto os ignorou, às 02h53, o Boeing se chocou contra a Serra de Aratanha sem deixar sobreviventes.

Escute o audio do CVR segundos antes da colisão clicando aqui. Cuidado com o conteúdo, pois pode ser constrangedor.
 

Fato Curioso


Existem muitas teorias para a colisão do 727 na Serra da Pacatuba, desde um eventual suicídio por parte do comandante da aeronave que passava por dificuldades financeiras e problemas pessoais. 

Comenta-se que o comandante haveria dito saber que à frente do 727 havia uns "morrotes de merda", em parte que teria sido editada antes da divulgação da gravação para a televisão (boato bastante comentado nas rodas de aeronáutica até hoje mas nunca comprovado, confirmados na época por amigos). Outra tese é o simples erro técnico da tripulação, como finalmente apontou o relatório do Cenipa. O estranho é que se pode comprovar na gravação do CVR a existência de um clima de "descontração" na cabine (não se sabe se por parte do comandante ou dos demais membros, mas alguém até assobiava) mas também se observa que o co-piloto e o engenheiro estavam preocupados ao ver seu Boeing voando abaixo da altitude prevista para o local onde sabiam existir morros como a Serra da Pacatuba. Comenta-se também que o co-piloto estava voltando para a escala de vôo naquele dia após cumprir suspensão por ter discutido com um comandante da empresa e tomado os controles de um 727 algum tempo antes. Dessa maneira, ele estaria em uma situação na qual, mesmo vendo um erro de navegação, queria evitar de se indispor com o comandante da aeronave, especialmente alguém tido como tão competente, como o comandante Vieira. Estes fatos, embora bastante comentados no meio aeronáutico, não podem ser comprovados. A realidade é que algo de muito errado aconteceu naquela madrugada, para que três competentes tripulantes técnicos e uma aeronave de 22 milhões de dólares (valores da época) com apenas cinco anos de idade, protagonizassem o maior acidente aéreo da história do Brasil, levando consigo 128 passageiros e mais seis tripulantes de cabine.

Susto no culto de 1 ano do acidente


Um ano após esse acidente, alguns familiares que viajaram até Fortaleza de outros lugares para participar do culto de 1 ano do acidente (e que já tinham como único assunto o desastre), passaram por um momento de desconforto no Boeing que fazia o vôo 254 da Vasp, cumprindo a mesma rota do PP-SRK exatamente um ano depois. A aeronave teve um problema no pouso no Rio de Janeiro e os passageiros tiveram de embarcar em outro 727 da empresa para finalizar a viagem. Isto ocasionou um atraso na chegada do vôo até Fortaleza e o mal-estar foi também sentido pelos que lá esperavam, como já haviam esperado um ano antes, por parentes e amigos que nunca chegaram.

O vôo 254 era aguardado para pouso entre 2h50 e 3h00 do dia 08 de junho de 1983 em Fortaleza e quando as pessoas foram avisadas do atraso, houve uma imediata lembrança do acidente do PP-SRK, chegando a haver choro e muita apreensão. A chegada do vôo 254 foi então marcada para 04h25 e o PP-SNI (outro 727-200, este originalmente da Vasp e que hoje voa na Mexicana como XA-MXJ) tocou a pista às 04h24, encerrando o drama dos que esperavam e dos que viajavam, um ano depois, na mesma rota, em uma aeronave igual a acidentada e da mesma empresa aérea.

VÍDEOS MOSTRAM REPORTAGENS DO ACIDENTE: