Tomioka: a cidade-fantasma nuclear onde Naoto Matsumara arrisca sua saúde para salvar os animais

Fazendeiro vive sozinho em cidade-fantasma nuclear no Japão

Depois do terremoto que devastou o Japão e causou um dos mais graves desastres nucleares da história mundial, quando a usina Fukushima Daiichi começou a vazar radiação, as cidades vizinhas foram evacuadas com correria, deixando lares vazios, ruas silenciosas e animais abandonados. Na pequena cidade de Tomioka, no entanto, a menos de seis quilômetros de distância da usina, um homem se recusou a sair: Naoto Matsumura, de 53 anos, produtor de arroz de quinta geração, que é sem dúvida o homem mais teimoso no Japão — talvez do mundo.

O Naoto certamente não é uma pessoa normal. Num primeiro momento, durante o desastre nuclear, ele fugiu para o sul com seus pais, mas depois ele os deixou em Iwaki e retornou para Tomioka. Mas sua razão para tanto não foi seu amor ao seu lar ou a recusa de um homem de meia-idade de se mudar. Foi mais simples que isso: ele não podia abandonar os animais da fazenda de sua família.

"No começo, fiquei com medo, porque eu sabia que a radiação tinha se espalhado", disse ele sobre seus primeiros dias de volta ao lar. "Na minha cabeça, se eu ficasse muito tempo aqui, achava que ia acabar com câncer ou leucemia. Mas, quanto mais tempo eu ficava com os animais, mais eu percebia que ainda estávamos todos saudáveis e que iria ficar tudo bem."

Lição de vida: Naoto Matsumara arrisca sua saúde para salvar os animais.

Matsumura agora cuida do gado, suínos, cães, gatos e até de avestruzes que estão sem dono, uma responsabilidade que ele assumiu em parte por conta do acidente: "Nossos cães não foram alimentados nos primeiros dias. Quando dei comida para eles, os cachorros dos vizinhos ficaram loucos. Fui olhar e descobri que estavam todos presos. Todo mundo saiu da cidade imaginando que estaria de volta em uma semana ou algo assim, acho. A partir de então, eu alimentava todos os cães e gatos. Eles não podiam suportar a demora, então todos se reuniam em volta do meu caminhão latindo. Onde quer que fosse sempre tinha algum cachorro latindo. Tipo, ‘Nós estamos com sede’ ou ‘Não temos nada para comer’. Então eu continuei fazendo as rondas."


Sem humanos por perto, muitos dos cães e gatos ficaram semisselvagens, se escondendo na floresta, e já não são uma visão comum. O gado ainda é doméstico e vive em campos de arroz abandonados, presos por cercas de tubos construídas à mão por Naoto. Ainda que as dezenas de vacas sobreviventes sejam só pele e osso, elas tiveram mais sorte do que os mais de 120 bovinos que morreram de fome dentro de um celeiro ali perto.

 "Todos eles morreram e apodreceram, sobraram só os ossos e chifres. Havia toneladas de moscas e vermes sobre os cadáveres. Era tão silencioso na cidade que a única coisa que eu conseguia ouvir era o zumbido das moscas. O fedor era tão horrível na época que, se você ficasse aqui dentro por mais de cinco minutos, ele grudava em você. Agora que só tem os ossos é mais fácil de olhar, mas na época foi realmente horrível, como uma cena do inferno. Mais de mil animais morreram [em Tomioka]."

A fome não foi única coisa que matou os animais — o governo foi responsável por mortes também. Após a evacuação, foi decidido por funcionários que, vendo como era impossível cuidar de gado na zona evacuada, não havia outra opção que não a eutanásia em massa do gado, antes que eles morressem de fome — essa ordem foi dada em 12 de maio de 2011.

Naoto olha para os esqueletos dos animais que morreram de fome no celeiro.

Compreensivelmente, essa decisão chateou Naoto. "Se eles fossem ser usados como carne não me incomodaria", disse ele. "A vida é assim. Mas por que apenas matá-los e enterrá-los todos? Animais e seres humanos são iguais. Me pergunto se eles poderiam matar pessoas assim... Penso que seria melhor adotar uma abordagem e esperar para ver, porque isso poderia fornecer bons dados experimentais para comparação com os humanos. Se os animais sobrevivem, então talvez não haja nada com que se preocupar. Mas se os animais começam a dar à luz gerações deformadas, então as coisas podem ficar malucas. Se isso acontecer, eles nunca devem deixar ninguém voltar aqui."

O repórter da BBC David Shukman teve acesso à cidade japonesa de Tomioka, que está dentro da zona de exclusão decretada devido ao acidente nuclear de Fukushima, em março deste ano. Naoto Matsumura levou o repórter a uma fazenda que os antigos proprietários deixaram para trás com pressa. Cerca de 60 animais não foram soltos e morreram presos dentro do estábulo.

Naoto Matsumura mostrou fazenda abandonada ao repórter da BBC David Shukman.


O local - que abrigava 16 mil pessoas - é hoje uma cidade-fantasma nuclear. O fazendeiro Naoto Matsumura é a única pessoa que se aventura pelas ruas da cidade diariamente.O nível de radiação é surpreendentemente baixo, o que permitiu que o repórter da BBC passasse algumas horas na cidade sem riscos à sua saúde. No entanto, os medidores Geiger ainda detectam altos níveis de radiação próximo ao solo.
O prefeito de Tomioka, anunciou que seria impossível que os residentes voltassem nos próximos cinco anos, citando a quantidade de tempo que seria necessário para descontaminar a cidade e reconstruir sua infraestrutura. Todos os cerca de 15 mil moradores de lá ainda vivem em abrigos, exceto Naoto e seus animais.

"Tomioka pode ser uma cidade pequena, mas sua natureza é rica", disse o único habitante da cidade. "Você tem os rios, o mar e as montanhas próximas. Você podia nadar no mar, pegar peixes nos rios e colher vegetais selvagens nas montanhas. Só que agora não podemos fazer nada disso."



Fontes:
BBC
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